top of page
Background.png
capa-cabeçalho-marco2025.png

Entrevista | Erico Rassi fala com o Oxente Pipoca sobre "Oeste Outra Vez"

  • Foto do escritor: Ávila Oliveira
    Ávila Oliveira
  • 24 de mar.
  • 7 min de leitura

Atualizado: 27 de mar.

O diretor comentou sobre suas referências, sobre a escolha do ator Rodger Rogério e sobre a presença feminina no filme.

Divulgação


Oeste Outra Vez, o western ganhador de 3 prêmios no 52° Festival de Cinema de Gramado – incluindo Melhor Filme –, chega aos cinemas no próximo dia 27 de março. Em entrevista exclusiva ao Oxente Pipoca, o cineasta Erico Rassi falou sobre os cenários de Goiás, sobre a presença (e a ausência) feminina no filme e também sobre suas referências.


O longa se passa no sertão de Goiás, onde homens rudes e incapazes de lidar com suas próprias fragilidades são constantemente abandonados pelas mulheres que amam. Tristes e amargurados, eles se voltam violentamente uns contra os outros. Você pode conferir nossa crítica clicando aqui.


Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu queria começar parabenizando pelo trabalho, Erico, e dizendo que assisti a Comeback (2016) pela primeira vez na pandemia e eu fiquei deslumbrado pelo filme. E acho que o resultado de Oeste Outra Vez ficou ainda melhor e maior do que o Comeback.


Erico Rassi: Muito obrigado mesmo.


Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Vamos começar, este é um filme que se passa em Goiás. Mas ele tem uma história tão universal que se ele se passasse em qualquer interior, pelo menos do Brasil, ele funcionaria. Se fosse Nordeste Outra Vez, funcionaria também perfeitamente. E não só do Brasil, certamente que em alguns outros países ele seria bem aplicável. Mas é um filme goiano. Como você acha que Goiás reflete no filme? O que você acha que tem de identificação daquele lugar no filme?


Erico Rassi: Eu acho que o que é mais goiano é a ambientação. As paisagens do Cerrado, daquela região da Chapada dos Veadeiros que é bem única. Eu já até falei para alguém, eu não lembro quem, que a sensação que tenho é quase como se fosse o nosso Monument Valley, só que em uma escala bem menor, e mais colorida e diversa em termos de vegetação.


E em termos de comportamento, eu acho que é isso que você falou, de certa forma ele representa esses interiores do Brasil e talvez vários outros interiores espalhados pelo mundo. São os homens, e os homens têm um comportamento relativamente parecido em relação ao machismo e à validação e cancelamento pelos pelos iguais, né? Não quer dizer que o machismo também não aconteça na mesma quantidade nas metrópoles, ele está presente em todos os lugares, mas eu acho que no interior ele é mais explícito. E é quase como se houvesse até um certo orgulho daquela coisa do macho.



Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu queria perguntar sobre a presença feminina no filme. Existe uma mulher que aparece no começo do filme e que introduz aquele universo sem falar nada, deixando aquilo tudo para trás. Eu queria saber se você chegou a cogitar ter mais mulheres, ou ter uma presença maior daquela mulher, ou não ter mulher nenhuma. Como que a figura feminina se desenvolveu durante a escrita inicial do roteiro até a montagem final do filme?


Erico Rassi: É engraçado porque a personagem feminina tinha uma participação maior. Ela ia até certa parte do roteiro, mas eu estava sentindo muita dificuldade em desenvolver melhor essa personagem. Eu sentia sempre que ela não estava integrada naquele universo. Para mim, ela ficava bidimensional. E eu fiz muita pesquisa para tentar desenvolvê-la. Eu fiz muitas e muitas entrevistas com mulheres de diferentes espectros, e mesmo assim, eu não consegui resolver.


Quando a gente teve essa ideia de eliminar a personagem feminina e fazer ela abandonar aquele universo de livre espontânea vontade, sair do filme no começo, as coisas parecem que se encaixaram. Então não foi uma ideia pré-concebida essa ausência dela, ela foi algo natural, e ao longo do processo a gente foi chegando a essa conclusão.


Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): O elenco do filme tá deslumbrante. A gente tem o Antônio Pitanga, que é um cânone, o Ângelo Antônio e o Babu que já têm uma estrada longa no cinema, mas eu vou puxar a brasa para a sardinha do meu conterrâneo. A atuação do Rodger Rogério é um espetáculo, e o personagem de certo modo lembra o personagem de Nelson Xavier em Comeback. Como é que você e o filme chegaram no Rodger, ou como é que o Rodger chegou ao filme, e como é que foi trabalhar com esse ator que nunca tinha sido um protagonista. Como ele lidou com o processo de fazer um personagem tão importante?


Erico Rassi: Eu escrevi o personagem do Jerominho para o Nelson, mas ele faleceu durante esses anos entre o Comeback e a produção do Oeste. E eu demorei até um pouco para conseguir me desapegar da persona do Nelson, porque tudo que eu escrevi era imaginando ele naquele papel. Então a gente fez teste com vários atores, consideramos muita gente, nossa, foi o personagem mais difícil de ser escalado. E aí a diretora de casting me apresentou o Rodger e a gente fez uma chamada por vídeo. E no começo eu estava muito inseguro, porque o Rodger nunca tinha protagonizado um grande papel no cinema.


Então eu fiquei com aquela coisa assim: “poxa, mas esse cara tem quase 80 anos e nunca fez um protagonista, e o filme inteiro gira em torno dele, será que eu vou bancar isso?” Demorei um pouco para dar esse salto de confiança, mas a gente foi fazendo algumas chamadas de vídeo, ele foi fazendo alguns monólogos. Até que eu fui sentindo mais segurança e a gente falou: "Não, vamos trazer ele de Fortaleza aqui para São Paulo e vamos fazer um um teste presencial com ele." Porque naquele momento ele já era com certeza nosso melhor Jerominho.


E aí nesse teste que ele fez presencial eu me decidi, eu vi que ele tinha um diferencial, uma fragilidade, ele trazia um sentimento para o personagem que sabia que ia funcionar. Foi então que eu resolvi confiar e apostar nele. E eu acho realmente que ele é o achado do filme, assim, eu não consigo imaginar o filme com outro ator que não fosse o Rodger naquele papel. Me sinto muito feliz de ter trabalhado com ele e de poder ter ajudado a protagonizar esse filme com essa idade.


Ele é um artista que apesar de ter essa carreira musical já consistente, ele ainda é tímido. Assim como eu também, eu também tenho essa timidez. Ele é alguém que não tem ego inflado. Quando a gente estava lá durante a filmagem, Bacurau saiu na capa da Cahiers du Cinéma e o Rodger ali na frente com o violão tocando aquela cena do que eles estão andando para o velório, e aí ele olhou: "Ah, que legal, tal". Mas assim, sem nenhum deslumbramento, sabe? Ele é muito diferente assim, parece fora desse sistema nosso, e acho que ele trouxe isso para o personagem. E isso somou muito ao personagem, o fato de ter uma grande oportunidade já com a idade avançada, no crepúsculo da vida.

Divulgação


Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Eu queria que você falasse sobre as suas influências. Certamente que você já assistiu a vários westerns na sua vida. Mas existe algum filme específico ou cineasta que você tenha como referência direta? E já queria perguntar também o que é você consome, o que você gosta de assistir? E vou perguntar logo junto se existe algum outro gênero que você tem vontade ou já um projeto para filmar.


Erico Rassi: Minhas influências são tipo uma salada. Eu tenho muita influência literária. Durante a pesquisa para o filme eu li muito de literatura regional, li muito Guimarães [Rosa], eu li Sagarana duas vezes. Li, terminei de ler, comecei a ler de novo, tem um conto que se chama “Duelo”, que foi meio que o disparo dramático para o filme, porque ele deu um estalo narrativo. Até ali eu só tinha a intenção de contar uma história sobre esses homens frágeis e violentos numa ambientação de oeste. Então, esse conto do Guimarães me deu um primeiro esboço de uma narrativa, mas que no final mudou bastante e é quase irreconhecível a influência do “Duelo” no roteiro do filme.


Mas um filme que eu gosto muito, e eu não diria que é uma influência direta, mas que ele tem uma uma certa influência para mim no sentido de que parece um filme clássico, mas que tem umas pequenas subversões que a gente percebe enquanto vai assistindo é o Shane (Os Brutos Também Amam (1953)). É engraçado que o Shane hoje é meio ignorado, como se fosse um faroeste meio careta. E ele tem algumas pequenas subversões que eu acho que são brilhantes. Tem toda a questão do homem desgarrado com aptidão para violência que chega e que meio que desestrutura aquela família, é um personagem que parece heróico, mas a gente vai ver que ele não é heróico e quem é herói mesmo é o personagem do Van Heflin, sabe?


Então eu gosto dessa proposta de contrabandear as questões sem que o espectador perceba isso de cara. Com certeza o espectador sente que tem alguma coisa estranha naquele faroeste em se tratando de herói e vilão. É um filme que eu gosto não pela estrutura dramática, não pela estética, mas acho que por essa possibilidade de trazer pequenas subversões dentro de um de uma narrativa mais clássica.


Eu gosto muito de ver coisas mais clássicas, assim claro, no cinema eu tento ver de quase tudo que estreia, mas quando eu estou em casa, eu assino o Old Flix, então eu fico revendo coisas antigas, eu revejo muita coisa. Esse final de semana eu revi Los Angeles - Cidade Proibida (1997), que já vi várias e várias vezes. Esse final de semana eu revi The Killer (1989) do John Woo.


Então eu gosto muito de rever, as vezes prefiro do que arriscar [risos]. Eu tenho um projeto que se passa aqui no centro de São Paulo e que são dois detetives incompetentes especialistas em casos de infidelidade conjugal, dois detetives bem vagabundos, bem bem precários. E que são contratados para investigar um caso de infidelidade, mas que vão descobrir que o caso é um pouquinho mais complexo e aí vão ter que lidar com esse submundo paulistano, um ambiente de muita bebida, de muita dificuldade de sobrevivência nesse dia a dia paulistano. Então, é um filme que usa meio um pouquinho do do gênero noir, mas para falar de outras temáticas, para falar do homem que tem que se virar para tentar sobreviver nesse submundo de golpes, de pequenas trapaças.


Ávila Oliveira (Oxente Pipoca): Agora para finalizar, queria que você indicasse filmes brasileiros que você gosta, que você tem como favoritos e/ou que você acha que o público deveria dar mais atenção.


Erico Rassi: Olha… deixa eu pensar em títulos que talvez pouca gente fale sobre… Meu Nome é Tonho (1969) do [Ozualdo] Candeias… e deixa eu ver outro que talvez ajude as pessoas a ampliar o repertório… e Cidade Oculta (1986), do Chico Botelho.


Σχόλια


bottom of page